No
Brasil, porém, a grande maioria
da imaginária até o século XIX tinham como suporte a
madeira. O tecido empregado como suporte para feitura de
obras escultóricas é um caso raro em nosso país.
Em Minas Gerais
encontramos alguns exemplares com tecnologia semelhante. Mas, apesar de partirem do mesmo princípio -
a utilização do tecido encolado como suporte - os
artistas brasileiros criaram uma nova maneira de
trabalhar a técnica.
Esse
grupo de obras mineiras, que vem sendo estudadas pelas autoras,
é desconhecido pela maioria das pessoas, inclusive
profissionais da área de conservação e restauração ou
historiadores da arte. Nosso trabalho de pesquisa visa conhecer as imagens
existentes em Minas Gerais, seus materiais e técnica
construtiva, sua localização na história da arte, visando
estabelecer meios mais adequados para a conservação das
mesmas.
Identificação
e localização das obras
Em nossa pesquisa já localizamos um
grupo de vinte e uma peças com a tecnologia estudada, todas em Minas
Gerais.
Apenas duas obras
apresentam documentos que atestam sua autoria, são elas:
-
São
Joaquim - cuja feitura foi realizada por Rodrigo Francisco, em
1753; (foto ao lado)
-
Nossa Senhora do Parto - cujo pagamento pela policromia
foi feito à Jerônimo José de Vasconcelos, em 1830.(foto
acima)
Conforme pode-se notar na
comparação das duas imagens de São Sebastião (fotos acima), observamos
uma disparidade de qualidade entre as obras, havendo algumas de
excelente qualidade, enquanto outras são de feitio bem popular, o
que determina a participação de diferentes artistas na execução
deste grupo de imagens.
Nossa pesquisa está em
processo. Iniciaremos agora um estudo comparativo, buscando
reconhecer através de análises formais e estilísticas, bem como
da tecnologia, semelhanças entre as peças que nos permitam
determinar atribuições quanto à feitura e policromia.
Tecnologia
de construção
O grupo de imagens
estudadas tem como característica em comum o uso do tecido como
suporte. Porém, quanto à forma há diferenças entre
essas obras que nos permite dividi-las em subgrupos: imagem de
vulto, cabeças e medalhões. Embora não tenhamos ainda condições
de determinar com precisão a tecnologia utilizada na
feitura de cada uma das obras encontradas, sabemos que dentre as
imagens de vulto, duas parecem possuir estrutura interna em
madeira, tendo apenas o panejamento feito em tela encolada.
Um conhecimento mais completo obtivemos com as obras que já
foram restauradas. Elas nos dão informações bastante
interessantes a respeito da tecnologia empregada. São
quatro as obras já restauradas, todas no CECOR - Centro de
Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis/EBA/UFMG.
A primeira imagem, de Nossa Senhora do Parto (foto na parte
superior desta página), foi restaurada por
Gilca Flores de Medeiros, como bolsista em projeto da Vitae/Cecor,
em 1994/95, e deu início a pesquisa dessa obras.
A
segunda imagem, de São João Evangelista (ao lado), foi restaurada, em
1998, por Eliane Monte2, como trabalho final no curso de
Especialização em Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis/EBA/UFMG. Iniciou-se aí a parceria das
autoras na investigação desse grupo de obras.
Em 2000/01, dois medalhões,
do município de Mariana/MG, foram restaurados por Sirlei Schmitt de
Toledo3,
também como trabalho final no mesmo curso de
Especialização.
A literatura apresenta as imagens em tela encolada de outros países
latinos sendo confeccionadas a partir de um suporte rígido,
feito com a medula da caña de maíz, seguindo técnica indígena, sendo esse
suporte revestido com tecido encolado e depois policromado.
Já as imagens de Nossa Senhora do Parto e a cabeça do São
João Evangelista têm o interior oco, com a forma sendo
constituída apenas pelos tecidos sobrepostos e encolados.
Pelos resquícios de argila encontrados no interior de ambas as
imagens, supomos ter sido este o material inicialmente usado
como base para a moldagem dos tecidos, sendo dispensado após o
enrijecimento resultante da encolagem, ficando oca a forma
moldada em tecido. Na parte interna foi aplicada uma mistura de
cera-resina proporcionando maior resistência à peça.
Os medalhões se diferenciam por apresentarem também a
utilização de papel machê na modelagem dos relevos.
Esquema
da confecção da cabeça do São João Evangelista, que
exemplifica a técnica das imagens em tela encolada.
Sobre a
forma modelada em argila (FIG.1), eram colocados os pedaços de
tecidos encolados, em várias camadas (FIG.2).
Há variação na quantidade de camadas, tendo sido observado
até cinco camadas. Quanto a qualidade, os tecidos também
apresentam variações,
sendo mais espesso e com trama mais aberta na parte interior,
chegando a um tecido bem fino, de trama delicada na superfície
(principalmente nas áreas de carnação).

Detalhe do pé do
Menino da Nossa Senhora do Parto.
Sob várias camadas de tecido, encontramos ainda resquícios da
argila
utilizada como molde inicial.

Após a secagem do
tecido encolado (FIG.3), essa forma em tecido era removida de
sobre a argila. Para garantir o enrijecimento do tecido, a área
interna recebiam uma mistura de cera e resina (FIG.4). Por fim,
a obra recebia base de preparação, douramento e
policromia, tal qual uma escultura em madeira.

Área interna da Nossa
Senhora do Parto (esq.) e do São João Evangelista (dir.).
No primeiro caso, áreas mais extensas de perda da
cera/resina.
Os cabelos são
confeccionados com fibra vegetal, que recebe policromia

As imagens de vulto podem apresentar partes em madeira, como a
base e as mãos. As cabeças provavelmente foram feitas para
estruturas de roca, porém, dentre elas, apenas no São João
Evangelista encontramos essa estrutura ainda preservada.
Estado
de conservação
As
imagens apresentam base de preparação, seguida de policromia.
Uma vez que a policromia esteja íntegra, torna-se difícil
notar tratar-se de uma obra em tecido. Essa provavelmente
foi uma das causas das deteriorações apresentadas por quase
todas as peças: não sendo reconhecidas como obras em tecido
policromado, receberam o mesmo tratamento que as obras em
madeira.
Ao lado,
imagem de Santo Antônio, que supomos ser do mesmo autor da
Nossa senhora do Parto (abaixo).
Evidentemente,
cada um desses suportes -
madeira e tela - se diferenciam na resistência às condições
climáticas, impactos, manuseios e transportes. Uma vez
tratadas sob a mesma forma, as imagens em tecido tendem a ser
danificadas mais rápida e drasticamente, por serem mais
delicadas.
Também
a técnica empregada favorece a deterioração: a argila utilizada
como apoio à modelagem deixa resquícios no tecido, formando uma
interface que impede uma boa aderência da cera/resina. Observamos
que, com o tempo e os inadequados cuidados de conservação,
ocorrem craquelês e o posterior desprendimento da cera/resina
provocando afundamentos, perda de resistência e mesmo da forma da
imagem.
Ao lado,
imagem de Nossa Senhora do Parto, no início da restauração, sem
o manto. A obra havia sofrido um tombamento devido à perda da
cera/resina interna e da policromia.
Das imagens encontradas, podemos dizer que quase a totalidade
delas está ainda em lamentável estado de conservação.
Muitas apresentam fraturas, perdas de policromia e suporte,
afundamentos e algumas estão repintadas.
Esta pesquisa
está em andamento e é dificultada pela escassez de informações
e bibliografia específica.
Assim, agradecemos o envio de qualquer informação a respeito de
obras dessa natureza ou tratamentos realizados.
Se tiver alguma informação a respeito, por favor, entre em
contato conosco através de nosso
e-mail !
Notas
1
Trabalho realizado no Cecor/EBA/UFMG, como bolsista em projeto mantido pela Fundação
VITAE e coordenado pela Profa. Beatriz Coelho
2 Obra restaurada como trabalho final no curso
de Especialização em Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis da Escola de Belas Artes da Universidade Federal
de Minas Gerais, orientado pela Profª Marilene Corrêa Maia e
co-orientado por Gilca Flores de Medeiros
3 Obra restaurada como trabalho final no curso
de Especialização em Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis da Escola de Belas Artes da Universidade Federal
de Minas Gerais, orientado pela Profª Bethânia Reis Veloso
Referências
bibliográficas
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Gilca, MONTE, Eliane. Tela encolada: catalogação e estudo
sobre a tecnologia incomum. In: Seminário da ABRACOR,
l998, Anais... Rio de Janeiro: ABRACOR, l998. p.318 - 320
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NAVARRO,
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TERAN,
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Post-Grado,
Universidad Nacional de Tucumán, 1993.
VILLA,
Jose Moreno. La escultura
colonial mexicana. México:
El Colegio de México,1942.
Agradecimentos
Agradecemos aos que de alguma forma contribuíram ou contribuem
para esta pesquisa´: Cecor - Centro de Conservação e
Restauração de Bens Culturais Móveis/EBA/UFMG, IPHAN-MG,
Profª Beatriz Coelho, Renata Maués, Moema Queiroz, Fundação
VITAE.
Agradecemos especialmente à Olindo Rodrigues dos Santos, Carlos
Magno e Edimilson Barreto pelas informações e apoio.
* Sobre
as autoras:
Gilca Flores de Medeiros
Mestre em Arte e Tecnologia da
Imagem e Especialista em Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis, pela EBA/CECOR/UFMG.
Professora efetiva do Departamento de Artes Visuais da
Universidade Federal do Espírito Santo.
gilcafm@uai.com.br
Eliane
Monte
Especialista em Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis, pelo Cecor/EBA/UFMG.
eliane.monte@uol.com.br