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A
restauração de olhos de vidro
Por Gilca Flores de Medeiros e Maria Regina Emery Quites*
Nas esculturas mineiras em madeira policromada dos
séculos XVIII e XIX os olhos de vidro são bastante utilizados,
seja nas imagens de talha inteira, articuladas, de vestir ou de
roca. Seu uso tinha por objetivo aproximar-se do realismo do
olho humano, já que o vidro colorido apresenta o brilho e
translucidez necessárias à esta tarefa.
Não muito raro, nos deparamos com alguma imagem cujo olho de vidro
apresenta algum grau de deterioração, estando parcial ou
totalmente perdido. Nas imagens devocionais a reconstituição dos
olhos é justificada por considerarmos o "olhar" um
aspecto importante da comunicação do fiel com a imagem.
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Nossa pesquisa teve início com a restauração da imagem de São
Benedito de Palermo1, da
Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de Mariana/MG, em 1994. Algum
tempo depois, realizamos a restauração dos
olhos da imagem de Nossa
Senhora da Conceição2, da
igreja matriz de
Sabará/MG. As duas restaurações foram realizadas no Cecor - Centro de Conservação e
Restauração de Bens Culturais Móveis/Escola de Belas Artes/UFMG.

São Benedito de
Palermo1 ,
Igreja
de Nossa Senhora do
Rosário, Mariana/MG
Foto antes e depois da restauração do olho
A técnica desenvolvida para a restauração dos olhos
dessas imagens foi apresentada no VIII Congresso da ABRACOR,
em 1996, constando em seus Anais. De lá pra cá, surgiram outros
casos semelhantes cujas restaurações realizamos ou tivemos a
oportunidade de acompanhar, enriquecendo nosso conhecimento neste
assunto.
Pesquisamos os materiais possíveis de serem utilizados para esta
restauração, que deveriam permitir um bom acabamento,
oferecer uma textura lisa, possibilitar uma adaptação à cor e
brilho desejados e ser reversível. Encontramos materiais
odontológicos que respondiam à essas necessidades: o alginato para
realização dos moldes e a resina acrílica auto polimerizante JET,
para a confecção dos olhos.
Dois tipos de casos se apresentaram à
nós:
- perda parcial de um dos olhos - com perda da área da
esclerótica (parte branca), mas com a preservação parcial
ou completa da íris e pupila;
- perda total de um dos olhos.
Em todos os casos,
o corte facil para colocação dos olhos estava intacto, com a
policromia também em bom estado. Portanto a intervenção deveria
ser efetuada pelo orifício externo dos olhos.
Com a prática, fomos modificando o método utilizado. Descreveremos
aqui cada passo do processo, comentando os resultados obtidos.
1. A curvatura do
olho.
O primeiro passo para a reconstituição do olho é obtermos a curvatura da órbita ocular.
Utilizamos dois métodos:
- Quando a imagem é simétrica, fazemos um
molde do olho que está íntegro, executando depois os acertos
necessários para o encaixe perfeito do olho.
- No caso de imagens que apresentam
distorções entre um olho e outro, é mais prático fazer o
molde diretamente sobre o vão do olho perdido. Para isso é
necessário preencher esse vão com algodão (ou material
semelhante), para que o material do molde não penetre mais que
o necessário.
(Esse método foi empregado por Suzana
Mattoso na restauração
do olho do Menino Jesus, de uma imagem de Santo Antônio, da
Matriz de Santo Antônio de Santa Bárbara/MG).2
Com esse primeiro molde obtemos a forma
negativa do olho. A partir dela, construímos uma forma positiva que
servirá de suporte para a confecção de um novo olho, de resina.
O processo para obtenção da curvatura do olho a ser reconstituído
foi o seguinte:
- Isolamos a área do olho que servirá de
modelo para tirar o molde - o molde deverá abranger a pálpebra. No São Benedito utilizamos o
filme de P.V.C. e na Nossa Senhora da Conceição, o verniz de PARALOID B72 em xilol a 10%. O segundo resultado foi o melhor.
- Sobre a área isolada, utilizamos o
Alginato para fazer o molde.
Essa massa foi colocada com o auxílio de um suporte, rapidamente
sobre a área do olho, pois o processo de endurecimento é rápido -
uma mudança de coloração permite o acompanhamento deste processo
de geleificação.
Em casos mais recentes, usamos o silicone SILON D,
material de textura mais lisa, melhor qualidade e durabilidade que o Alginato,
porém de custo superior a este.3
Sobre o molde negativo, aplicamos gesso
para construirmos a fôrma positiva deste olho.
- A seguir, desbastamos na fôrma de gesso a área da
pálpebra (conforme indica a seta da figura abaixo),
para conseguirmos uma área maior da curvatura do olho.
Neste momento é interessante que se façam
quantos acertos forem necessários à essa fôrma de gesso, pois na
resina final esses acertos serão mais trabalhosos.
Já tendo feito o desbaste das pálpebras, recortamos o gesso para servir de modelo para experimentações diretas no
vão do olho. Seu formato deveria
permitir sua introdução no orifício da pálpebra; para isto,
optamos por uma forma em calota. Fixamos na forma em gesso um cordão para
manipulá-lo, introduzindo-o no vão do olho, checando a
curvatura e realizando nele todos os acertos necessários.
Tendo conseguido a curvatura ideal,
esse molde positivo em gesso foi utilizado como suporte para a forma
definitiva em resina acrílica. Em trabalhos mais recentes,
acrescentamos mais uma etapa: sendo feito outro molde negativo da
forma, já com a curvatura correta, e a seguir tiramos o positivo em
resina. Há duas vantagens nesse procedimento: o produto final em
resina tem seu contorno mais definido e na parte da frente a calota
terá uma textura lisa, ficando as irregularidades na parte interna
- o que facilita seu acabamento.
Moldes de gesso (fôrma e forma) e réplica do olho em forma de
calota - da imagem de Santo Antônio.
2. A confecção do
olho em resina.
Nos casos em que pudemos conservar a íris original,
reconstituímos a esclerótica,
que se encontrava praticamente perdida. Para o posicionamento,
tínhamos como referência o olho que se
encontrava em boas condições.
O processo para a confecção do olho em resina foi o seguinte:
- Para que a resina se
desprendesse com facilidade do gesso, este foi isolado com uma
camada de sabão ou vaselina.

- Utilizamos a resina acrílica auto
polimerizante JET (líquido e pó)
Como a resina é transparente, nas primeiras
experiências, misturamos ao pó da resina
os pigmentos branco de titânio, azul cerúleo e ocre claro, num
almofariz, para obtermos o tom da esclerótica original. Depois fomos acrescentando o
líquido catalisador e aplicamos uma primeira camada sobre a
fôrma. A seguir, fixamos a íris original com PRIMAL, sobre
esta primeira camada e aplicamos uma segunda camada de resina ao
nível da íris.
Nas experiências posteriores, trabalhamos com a resina pura e
depois aplicamos uma camada de tinta para obter a cor da
esclerótica. Esse processo é mais prático e os resultados
foram bons. Utilizamos a tinta a base de pigmento/verniz,
da Maimeri.
Nos casos em que não havia ou não foi possível aproveitar a
íris original, reproduzimos a íris também com o
pigmento/verniz, da Maimeri. Se for necessário reproduzir
o relevo da área da córnea, ao final damos um pingo de verniz
de PARALOID
(espesso) sobre a pupila,
deixando-o acomodar espontaneamente e secar.
- O acabamento da resina foi feito com
lixa d' água n° 400 e 600 e lixas metalográficas.
3.
A colocação e fixação do olho reconstituído.
Foi fixada à calota um cordão de
algodão, para que depois de introduzida na
órbita ocular, esta fosse içada. Para sua fixação definitiva, foi aplicado o adesivo
acetato de polivinila (PVA) na pálpebra (lado interno). A calota foi puxada, mantendo uma
força até a pega do adesivo.
Após a remoção do cordão e limpeza do
adesivo, aplicamos o verniz de PARALOID B72 a 10% em xilol para
igualar o brilho da esclerótica original.
Conclusão
O material odontológico proporcionou-nos um
bom resultado e acreditamos que outros produtos utilizados em
odontologia também tenham condições de utilização em
restauração. Uma vantagem do uso desses materiais é serem de
fácil acesso no comércio e de baixo custo financeiro.
Nossa Senhora da
Conceição4
Igreja matriz de Sabará/MG.
Foto antes e depois da restauração do olho.
Os processos utilizados foram satisfatórios,
permitindo a restauração sem a remoção da face, recompondo
estrutural e esteticamente o olho e, conseqüentemente, o
"olhar", importante na relação do devoto com a imagem.
Materiais
- Alginato para impressões, AVA GEL - Herpe - Produtos Dentários;
- Resina acrílica auto polimerizante JET (Co-polímero de acrílico
para consertos e reembasamentos), Artigos odontológicos Clássico
Ltda, Liq-250ml, pó-450ml;
- PARALOID B72
- PRIMAL
- Acetato de polivinila (PVA)
- Pigmento/verniz, Maimeri
- Silicone SILON D
Notas
1 e 4 - As imagens de São Benedito de
Palermo e Nossa Senhora da Conceição faziam parte de pesquisas
desenvolvidas pela Profa. Beatriz Coelho: 1.São Benedito de Palermo
- pesquisa: "Francisco Vieira Servas: escultor português no
século XVIII em Minas Gerais"; 2.Nossa Senhora da Conceição
-pesquisa: "Escultura policromada do séc. XVIII em Minas
Gerais: tecnologia", pesquisas apoiadas pelo CNPq.
2 - A restauração foi
realizada como trabalho final no 13° Curso de
Especialização em Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis/EBA/UFMG, sob a orientação da Profª Maria Regina
E. Quites.
3 Utilizado
na restauração do olho do São Francisco de Assis, de
Paracatu/Minas Gerais, pelas alunas Eliana Ribeiro Ambrósio e
Maria Ângela Reis de Castro, no 14° Curso de
Especialização em Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis/EBA/UFMG, sob a orientação da Profª Maria Regina
E. Quites.
Agradecimentos
À Rosa Núbia Jericó Vieira, cirurgiã
dentista, pela valiosa colaboração; à química Claudina Moresi
pelas análises de materiais; Cláudio Nadalin pela documentação
fotográfica; à Tatiana L.C. Santos, bolsista FAPEMIG, pela
competência e dedicação; à Vânia Rosa Parreira, pela
colaboração na restauração do olho da imagem de São Benedito;
ao Prof. Henrique Jorge de Paiva pela colaboração na pesquisa
sobre o vidro e à Profa. Beatriz Coelho, pioneira na pesquisa da
tecnologia da Escultura Policromada em Minas Gerais.
Bibliografia
MEDEIROS, Gilca; QUITES, Maria
Regina. Olhos de vidro na escultura policromada: tecnologia e
restauração. In: Seminário
da ABRACOR, 8, l996,
Ouro Preto. Anais... . Rio de Janeiro: ABRACOR, l996. p.189 - 193.
COELHO, Beatriz R.V. A contribution to the study of
Aleijadinho the most important sculptor of Colonial Brasil -
Conservation of the Iberian Latin American Cultural Heritage, IIC -
Preprints of the contribution to the Madrid Congress. 9-12-septtember,
1992.
ENCICLOPÉDIA Mirador Internacional, Encyclopaedia Britanica do
Brasil Publicações Ltda. São Paulo, 1976. p.11422.
GRAN Enciclopedia del Mundo, Madrid, Editorial Marin, 1971, volume
14.
HIALOTÉCNICA, Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo
Horizonte, 1992.
OLIVEIRA, Myriam A.R. Santuário de Congonhas e a arte de
Aleijadinho. Belo Horizonte: Edições
Dubolso.
REUTER, Jungen. Vidro: técnica em vidro. Recife:Sactes, 1994.
v.10.
* Sobre
as autoras:
Gilca Flores de Medeiros
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dados
pessoais.
Maria
Regina Emery Quites
Professora de Restauração de Escultura Policromada no Curso de
Especialização em Conservação /Restauração de Bens
Culturais Móveis - Departamento de Artes Plásticas/Escola de Belas Artes/UFMG.
Mestre em Artes Visuais (EBA/UFMG).
Especialista em Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis (EBA/UFMG).
E-mail: mreq@dedalus.lcc.ufmg.br